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Crise energética em Cuba: o tabaco, pilar da economia, está a arder lentamente
O cancelamento do festival do charuto é um sintoma da asfixia progressiva de uma das últimas grandes fontes de divisas do país.
Oficialmente, os organizadores do festival explicam que o adiamento visa "preservar os mais elevados padrões de qualidade, excelência e experiência" do evento internacional, cancelado quando a ilha atravessa uma grave crise energética marcada pela escassez de combustível e cortes de energia.
A crise atual deve-se, nomeadamente, à interrupção das entregas de petróleo venezuelano, desde a detenção, no início de janeiro, pelos Estados Unidos, de Nicolas Máduro, presidente da Venezuela, um parceiro energético crucial.
A ilha, que depende fortemente da importação de combustível, teve de adotar medidas drásticas, incluindo o racionamento de eletricidade, o encerramento de hotéis e a suspensão de voos internacionais por falta de parafina.
Neste contexto, a organização de um festival internacional que envolve milhares de convidados, viagens, recepções e uma logística que consome energia - apesar de ser uma fonte direta de divisas e um poderoso instrumento de marketing para os charutos cubanos - tornou-se difícil de conciliar com a prioridade dada aos serviços essenciais e a setores estratégicos como o próprio tabaco.Tensões económicas e sociais em torno da festa do charuto
Para os meios de comunicação independentes, a decisão também responde a considerações políticas e sociais.
A organização de um evento luxuoso em plena crise poderia ter provocado uma maior indignação por parte da opinião pública, na sequência das críticas das edições anteriores, em que as imagens de convidados estrangeiros a desfrutarem de jantares sumptuosos contrastavam com a escassez, os cortes de eletricidade e a precariedade vivida diariamente pela população.Muito mais do que uma feira de charutos de luxo
O festival é mais do que uma simples feira: é uma montra mundial de charutos cubanos topo de gama e um evento fundamental para a economia do setor.
Todos os anos, reúne amadores abastados, distribuidores internacionais e jornalistas especializados de todo o mundo.
O programa inclui visitas a plantações, feiras e, sobretudo, um jantar de gala acompanhado de leilões espetaculares de charutos e humidificadores de luxo. Estes leilões são um acontecimento fundamental: em 2025, permitiram angariar mais de 16 milhões de euros para o Governo cubano. Os fundos, oficialmente, são injetados no sistema de saúde.
Para além de gerar receitas diretas, o festival é uma montra comercial essencial, que reforça a imagem internacional dos charutos cubanos e apoia as exportações.O tabaco, pilar estratégico da economia cubana
Em 2024, as vendas de charutos cubanos atingiram 827 milhões de dólares, o que os torna um dos principais produtos de exportação do país, juntamente com o níquel, os produtos do mar, as vacinas e os serviços médicos.
Cuba domina este mercado, sendo responsável por cerca de 70% das exportações mundiais de charutos. Só a Europa representa metade das vendas em valor, à frente da Ásia-Pacífico, das Américas e da África-Médio Oriente.
Esta dependência dos mercados externos é estrutural. Devido ao embargo americano em vigor desde 1962, os charutos cubanos estão excluídos do mercado norte-americano, que é o maior do mundo.
Tendo isso em conta, Cuba construiu a sua estratégia comercial em torno da Europa e da Ásia, onde os charutos cubanos gozam de uma imagem de prestígio e de excelência.
Para além das exportações, o setor desempenha um papel crucial em termos de emprego e de rendimentos.
A produção envolve uma cadeia económica completa, desde as plantações até às fábricas. Os salários podem ser 3 a 5 vezes superiores à média nacional.
A organização do setor reflete igualmente a sua importância estratégica. A produção é controlada pelo Estado, por cooperativas e por alguns produtores privados, enquanto a exportação é um monopólio confiado à empresa Habanos S.A., uma empresa comum entre o Estado cubano e um parceiro estrangeiro. Este monopólio permite ao governo captar diretamente as receitas em divisas geradas pelas vendas internacionais.
Crise energética ameaça produção
A falta de combustível está a ter um impacto direto na produção agrícola. Os agricultores têm dificuldade em irrigar as culturas ou em transportar as folhas de tabaco devido à falta de gasolina.
De uma forma mais geral, a crise energética está a afetar toda a cadeia económica do tabaco: dificuldades de produção, perturbação das exportações, redução da atividade económica, enfraquecimento do turismo, que contribui para as vendas de charutos.
A atual crise energética não afeta apenas o tabaco. Afeta todos os setores que garantem a sobrevivência financeira do país. Por isso, o cancelamento do festival do charuto é muito mais do que um evento cortado no calendário.
Diane Burghelle-Vernet / 25 fevereiro 2026 09:58 GMT
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP